Lei que torna obrigatório o ensino da história afro-brasileira no país ainda é “tímida”, diz professora

Lei que torna obrigatório o ensino da história afro-brasileira no país ainda é “tímida”, diz professora

Folha Vitória – 06 de novembro de 2015 – atualizado

A Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas do Ensino Fundamental e Médio, quer mudar o modo como o negro escravo é apresentado nas aulas

Durante o Ensino Fundamental e Médio, aprendemos que o negro era um escravo condenado a condições de trabalhos sub-humanas, vítima de violência cruel e sem personalidade. Isso não é mentira, mas apenas um lado da realidade. E é essa visão que a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, quer mudar.

Segundo a Doutoranda, a discussão sobre a educação étnica racial ainda é tímida nas salas de aula dos ensinos Fundamental e Médio.

A lei propõe novas diretrizes curriculares para o estudo da história e cultura afro-brasileira e africana. Nelas, os professores devem ressaltar em sala de aula a cultura afro-brasileira como constituinte e formadora da sociedade brasileira, na qual os negros são considerados sujeitos históricos, valorizando-se, assim, o pensamento e as ideias de importantes intelectuais negros brasileiros, a cultura em todas suas áreas, como música, culinária, dança, e as religiões de matrizes africanas.

“É importante identificarmos que os negros escravizados eram construtores da sua história. A preocupação é passar que os escravos não eram apenas coitados, mas integrantes e participantes da história deles. Então, é preciso trabalhar com a imagem de personagens importantes, que lutaram, como tivemos a história de Queimados aqui no Espírito Santo”, conta Rafaela Domingos Lago, professora da disciplina História e Cultura Afro Brasileira do curso de Pedagogia da Faculdade Novo Milênio e Doutoranda em História na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com estudos voltados para a escravidão no Estado.

Para Rafaela, ao abordar essas questões com crianças, elas mudam seu olhar a respeito da história dos negros. “Quando elas enxergam essas pessoas construindo sua própria história, elas passam a se ver no outro. Que criança vai querer se identificar com um escravo que vive apanhando? Precisamos construir identidades positivas, de pessoas que lutaram por seus sonhos, contestaram a escravidão e criaram oportunidades”.

Segundo a Doutoranda, a discussão sobre a educação étnica racial já é bem ampla em ambientes acadêmicos, mas ainda um pouco tímida nas salas de aula dos ensinos Fundamental e Médio.  Por isso é importante preparar professores para trabalhá-la com os alunos. “Estamos trabalhando em passos mais largos para preparar os professores para que eles abordem de uma forma mais consciente. O objetivo é tratar a história do negro, não deixando de falar dos problemas, das consequências ruins do processo de escravidão que refletem ainda hoje. Não é que não devamos falar disso, mas como uma imagem positiva para que as crianças possam identificar essa imagem e se ver nessas pessoas”.