Livro com fotos de Verger apresenta simbologia das roupas de baianas

Livro com fotos de Verger apresenta simbologia das roupas de baianas

Correio24horas – Monique Lôbo – 28 de novembro de 2015

Lançamento da obra será neste sábado (28), no Terreiro do Gantois

O que é que a baiana tem? De acordo com os versos de Dorival Caymmi (1914-2008), eternizados na voz da pequena notável Carmen Miranda (1909-1955), tem torço de seda, brincos e pulseira de ouro, pano da costa, bata rendada, saia engomada e sandália enfeitada. Bem verdade que esse ouro todo ela nem sempre tem, mas o resto… isso ela tem.

A indumentária herdada das ancestrais africanas é, talvez, uma das principais características da mulher negra da Bahia. E se de longe parece só pano, com um olhar mais criterioso é possível perceber que cada trama de tecido e cada adereço envolvido no corpo carrega a tradição e a história de um povo.

É possível entender isso através das páginas do livro Moda e História – As Indumentárias das Mulheres de Fé (Senac São Paulo/R$ 49,90/ 126 páginas), que mescla imagens do fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger (1902- 1996) com o texto do antropólogo e museólogo carioca Raul Lody, 64 anos.

Livro reverencia estética da baiana através de texto do antropólogo Raul Lody e fotos do francês Pierre Verger (Foto: Divulgação)

Hoje, às 17h, o Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê, o Terreiro do Gantois, abriga o lançamento do livro. “Vamos estar no barracão, onde acontecem as festas, é lá que seremos recebidos para promover esse belo trabalho”, explica Raul.

Estética e identidade
Esse projeto não nasceu por acaso. “Eu digo que ele começou em 1972 quando fui fazer um trabalho no Instituto Francês para estudar arte africana”, conta o autor. A pesquisa constante e os mais de 18 anos catalogando e documentando importantes coleções de arte africana e afrodescendente no Brasil o levaram a esse recorte feminino.

Sim, porque desvendar a roupa das baianas é apenas uma pequena parte de um imenso contexto. Mas é a parte visível, que identifica e, por consequência, reúne os outros aspectos ao seu redor. “A partir dessa montagem multicultural que a roupa da baiana tem, pude inserir outras questões sociais, religiosas, de gênero e do fortalecimento do papel feminino”, avalia.

E como falar de moda sem exemplificar? Impossível. Por isso, caiu como uma luva o acervo do fotógrafo francês. Verger dedicou boa parte da sua vida para pesquisar a diáspora africana. Chegou em Salvador em 1946 e se encantou pelo candomblé. Em 1953, foi iniciado com babalaô, quando ganhou o nome de Fatumbi.

Imagens de Verger ilustram as indumentárias de baiana como o camizu, os fios de conta, as pulseiras em latão tipo idé (aros), o pano de costa da cintura e a saia rodada estampada (Foto: Divulgação)

 

“O acervo da Fundação Pierre Verger é um precioso registro da Bahia, da África e de tantos locais. Como estamos lidando com algo que mexe com o imaginário, precisávamos de referência visual de qualidade”, afirma Lody, que também é curador da Fundação Pierre Verger.

Afirmação
Sempre em preto e branco, cada imagem retrata a simbologia das indumentárias que ultrapassam a função de vestir e se tornam instrumentos de identificação e de pertencimento a uma história cultural. “Não são apenas roupas, elas são símbolos, como qualquer roupa, mas, nesse caso, são mais fortalecidas com esse sentido afirmativo”, conta.

O pano, os adereços e as formas como são vestidos representam o papel da mulher negra na sociedade. “A roupa distingue o ofício, a crença, as festas das quais participam, a mitologia, a música, a dança… No caso do acarajé, por exemplo, existe toda uma tipologia social ligada à roupa”, revela.

Não à toa, o prefácio do livro ganhou a assinatura de Mãe Carmem, a ialorixá do Terreiro do Gantois. “Moda e História é um documento que mostra e valoriza o papel da mulher nas tradições de matriz africana”, escreveu a ialorixá. “Esse  depoimento foi fundamental, porque é de uma pessoa que vive e conhece o assunto”, completa o autor.

E, mesmo com a globalização tentando pasteurizar o conceito de beleza, para Lody, cada cultura cria seu padrão estético e viver esse fenômeno diariamente é a única forma protegê-lo. “Só o exercício da cultura pode preservá-la. Eu salvaguardo a comida comendo, salvaguardo a festa participando dela, salvaguardo a indumentária usando. Dentro desses contextos globalizados, as culturas locais são os grandes espelhos da memória”, conclui.