‘O negro recebeu, junto com o canudo da alforria, a miséria’, diz Assumpção

‘O negro recebeu, junto com o canudo da alforria, a miséria’, diz Assumpção

GCN – 22 de novembro de 2015

Poeta, professor e militante da causa negra, Carlos de Assumpção conta um pouco sobre sua trajetória e como avalia a condição do negro ontem e hoje

Nascido em 23 de maio de 1927, o poeta Carlos de Assumpção viu as várias faces do racismo durante quase um século. Neste período, viu o negro deixar de ser barrado à porta de estabelecimentos para ser isolado do lado de dentro. Viu esse grande inimigo ser transformado em crime e se adaptar aos novos tempos; se escondendo por trás da falta de oportunidade e representatividade daqueles que formam a maior parcela da população brasileira.
“Enquanto essa marginalização do negro não se resolver, a situação do Brasil não vai se resolver também. Como é possível um país se desenvolver excluindo mais da metade de sua população? É um crime que o país pratica contra nós e contra a si mesmo”, afirma.
Em seu famoso poema Protesto, Carlos de Assumpção dá voz ao lamento que ano após ano, infelizmente, não se desatualiza. “Senhores/ Atrás do muro da noite/ Sem que ninguém o perceba/ Muitos dos meus ancestrais/Já mortos há muito tempo/ Reúnem-se em minha casa/ E nos pomos a conversar/ Sobre coisas amargas/ Sobre grilhões e correntes/ Que no passado eram visíveis/ Sobre grilhões e correntes/ Que no presente são invisíveis/ Invisíveis mas existentes/ Nos braços no pensamento/ Nos passos nos sonhos na vida/ De cada um dos que vivem/ Juntos comigo enjeitados da Pátria”, diz um de seus versos. “Esse poema foi escrito em 1950 e, infelizmente, até hoje nos representa.”
Nesta entrevista, Carlos conta como um menino negro e pobre, filho da lavadeira Sebastiana de Souza e do jardineiro Matheus Carlos de Assumpção, conseguiu ultrapassar os obstáculos de sua condição social e época chegando a formar-se professor e advogado e autor de quatro coletâneas de poemas.
Em 20 de novembro celebrou-se o Dia Nacional da Consciência Negra. Como o senhor encara a criação da data?
A data é algo importante, criada por uma razão histórica. O Brasil sempre dependeu do negro e não somente em relação ao trabalho braçal, como muita gente pensa. Antes de chegar ao Brasil, o negro era livre. Não entendia apenas de cana-de-açúcar, mas sabia lidar com a mineralogia, indústria têxtil, fora a cultura. Enquanto países europeus ainda viviam em estágios culturais atrasados, na África já tínhamos grandes civilizações, como o Egito. O Egito de ontem era negro e não branco ou árabe, como se vê hoje. A Europa, inclusive, levou para si muito do conhecimento literário e filosófico da África. Esopo, por exemplo, era negro e muita gente desconhece esse fato. Mas a conscientização não compete somente ao negro como também ao branco. Até porque, não viemos ao Brasil por vontade própria, mas arrancados da mãe África.
E o que há para ser comemorado nesta data?
Acho que quase nada. A não ser um pequeno avanço na Educação. Na minha época de infância, o analfabetismo era geral entre os negros e brancos pobres. Em 1950, eu conhecia poucas pessoas com o primário. Faculdade, então… Hoje temos muitos negros graduados. Mas isso não quer dizer, de forma nenhuma, que a situação esteja resolvida. A maior injustiça que se fez com o negro, aqui no Brasil, foi em 13 de maio de 1888, quando lhe deram a liberdade tão enaltecida. O negro recebeu, junto com o canudo da alforria, a miséria. Ele saiu de uma escravidão para outra. Que, na minha maneira de ver, existe até hoje. A participação do negro nos setores de desenvolvimento do país é diminuta.
E qual seria a maior razão para que, mais de um século depois, o negro ainda não tenha alcançado seu lugar merecido na sociedade?
Porque a ele foram negadas as oportunidades. Ele saiu da escravidão sem trabalho e amparo de qualquer tipo. A mim, parece um milagre que nós tenhamos sobrevivido. Saímos de uma escravidão institucionalizada para este novo tipo: que é essa em que não participamos de nada. É difícil para um negro ligar uma TV e se achar nela, a não ser, essencialmente, em figuras negativas. Parece que estamos em um país ao qual não pertencemos e isso não é verdade. Enquanto essa marginalização do negro não se resolver, a situação do Brasil não vai se resolver também. Como é possível um país se desenvolver excluindo mais da metade de sua população? É um crime que o país pratica contra nós e contra a si mesmo.
.
Sendo esta a sua visão, não é errado supor que para o senhor as políticas públicas voltadas para o negro, como o sistema de cotas em universidades, não tenham grande efetividade.
Acho que as cotas são válidas, sim, mas são migalhas. isso não vai resolver, mas é capaz de dar maior competitividade ao negro no mercado. Tenho dois netos que estudaram pelo sistema de cotas e se formaram: um em odontologia e outro em educação física.
O senhor fala muito sobre as dificuldades de ascensão do negro, mesmo tendo no currículo faculdades de letras e direito. Como foi o caminho até essas conquistas?
Sempre tive atração pela leitura por ver a minha mãe lendo. Achava bonito. Ela pegava livros de Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e outros poetas na biblioteca da igreja, porque na minha casa não havia de jeito nenhum. Mal tínhamos dinheiro para o arroz e o feijão, quanto mais para comprar livros. Pela leitura, passei a me destacar no curso primário e, ao final, a professora Albertina Audi conseguiu para mim um curso gratuito para eu me preparar para o vestibular que era feito para ingressar no ginasial. Passei. Minha mãe, que lavava trouxas enormes de roupa, não sei como, conseguiu comprar para mim os livros e então já emendei o normal. Saí de lá e fui procurar aulas para dar mas, como não era comum um professor negro, tive muita dificuldade. Fui para São Paulo e exerci várias profissões como ajudante de caminhão e faxineiro antes de ir para o interior e lutar muito para lecionar. Anunciavam as vagas de professor, eu entrava em contato confirmando e, quando chegava, diziam que não havia vaga nenhuma. Era tudo mentira. Não iam com a minha cara branca (risos). A faculdade veio para mim na vida adulta, já em Franca. Estudei na Faculdade de Filosofia e Letras e Faculdade de Direito.
Em seu famoso Protesto, conhecido Brasil afora, o grito contra as desigualdades que atingem o negro é dado de forma contundente. Que histórias o poema rendeu?
Certa vez, Geisel (Ernesto, presidente do Brasil entre 1974 a 1979) foi convidado para uma cerimônia que acontece em frente ao monumento da Mãe Preta, da igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandú, em São Paulo. Antes de aceitar, pediu o cerimonial da festa e lá dizia que o meu poema Protesto seria lido. Ele pediu para enviarem o poema para que ele soubesse do que se tratava e disse se fosse lido aquilo, não compareceria. Então, suprimiram meu poema da programação. Já no ano passado, enviei o Protesto e outro poema à Dilma (Rousseff, presidente do Brasil) e a correspondência foi respondida. Seu secretário pessoal me enviou uma carta em que ela agradecia o meu gesto. Também no ano passado, trechos deste mesmo poema foram declamados, no dia 20 de novembro, no Senado, pelo senador Paulo Paim.
Poderia compartilhar algum momento em que o racismo o tenha afetado?
Quando eu estava no 3º ano, nossa professora, Helena, quis colocar na lousa um quadro de honra. Fez um bem bonito colocando os melhores alunos em 1º, 2º e 3º lugares. Quando ela colocou o meu em primeiro, quase não acreditei. Pensei: eu, todo mal trapilho, roupa remendada e descalço? Naquela época podia-se frequentar a escola sem calçado. Ainda bem, porque senão não teria estudado. Fiquei muito orgulhoso mas, no meio do ano, ela ficou doente e foi substituída por uma outra chamada Mariínha. Não me esqueço desse nome nunca. Desde o primeiro momento em que a vi, minha barriga esfriou pelo modo como ela me olhava. Ficou indignada por eu ser o primeiro aluno da classe. Único negro, aliás. Um dia, ela estava de costas escrevendo na lousa e alguém fez alguma gracinha. Ela se virou para mim e disse: sabia que você não merecia ser aluno de honra nenhuma. Pegou o apagador e tirou meu nome do quadro. Eu tinha 9 anos e, nossa senhora, isso me marcou de mais.
Hoje, temos leis que transformaram o racismo em crime inafiançável e ser rotulado como racista dá ao sujeito uma má fama. Assim sendo, os atos de discriminação se tornam camuflados. Como o senhor os percebe na sociedade atual? 
Antigamente, os racistas podiam barrar a entrada dos negros nos locais. Hoje, o negro entra, mas é isolado. E esse racismo camuflado é muito mais difícil de combater do que o aberto porque a pessoa não se organiza e não sabe de onde ele pode surgir. Dentro disso temos a descaraterização do negro e a política do branqueamento. Isso leva o sujeito a perder sua identidade. Às vezes, a pessoa não quer se assumir como negra e acaba rejeitada em meio aos brancos e aos negros. A situação é dolorida.